Versatilidade Artística
Artísta Plástica Fátima Ferreira
O desejo da humanidade em comunicar e deixar um registo perene no tempo, de suas interrogações, anseios e até fazer passar um testemunho às gerações vindouras remonta ao paleolítico. Foi nesta época que se começaram a realizar as pinturas nas grutas onde se retratam episódios da vida dos nómadas que se dedicavam essencialmente à caça e davam os primeiros passos na agricultura recolectora. Começaram aqui a derivar nas atividades de subsistência, sendo que, paralelamente às atividades da caça e da busca de alimentos para si e os animais que pastoreavam, começaram a dominar a arte de reprodução de alimentos que, progressivamente levou alguns indivíduos a se dedicarem à nova atividade e experiência de semear e colher alimentos. Esta nova atividade causou a fixação de grupos comunitários em zonas propícias à produção agrícola, diminuindo progressivamente as comunidades nómadas.
Desses tempos, chegam-nos hoje, relatos do palco da vida dos nossos ancestrais ao terem registado as suas atividades nas esculturas em osso, chifre, marfim e calcário representando animais e figuras humanas, e nas pinturas rupestres que o tempo não apagou. Fica contudo, por definir concretamente as mensagens que nas pinturas estão contidas. Segundo a Fundação Museu do Homem Americano no Brasil, as pinturas são “… uma verdadeira linguagem, na qual o suporte material é composto por elementos icônicos, cuja completa significação perdeu-se definitivamente no tempo por não conhecermos o código social dos grupos que o fizeram. … Efetivamente, cada grupo étnico possui um sistema de comunicação gráfico diferente, com características próprias. Assim, mesmo que não possamos decifrar a sua significação, será possível identificar cada um dos conjuntos gráficos utilizados pelos diferentes grupos. Quando os conjuntos gráficos permitem o reconhecimento de figuras e de composições temáticas, existe também a possibilidade de identificar os elementos do mundo sensível que foram escolhidos para ser representados. Esta escolha é de fundo social sendo também caracterizadora de cada grupo, pois oferece indicadores sobre os elementos do entorno e as temáticas que são valorizadas por cada sociedade. [1] " Fim da citação.
Este código social que tem acompanhado a raça humana ao longo de sua existência, influenciou e condicionou no decorrer dos tempos as expressões artísticas que estão bem retratadas na civilização egípcia. Esta civilização antiga é talvez a que maior legado nos deixou de um passado artístico muito condicionado aos valores sociais de caráter religioso e dogmático, tendo a vida depois da morte um papel relevante que inspirou os artistas e artífices no desempenho de sua arte. Está bem patente no nosso imaginário a arte da civilização egípcia, representada nos vastos monumentos da sociedade faraónica, tendo levado os estudiosos a interpretar a sua cultura e arte. Mas, paralelamente, muitos mitos têm alimentado a imaginação humana, fruto por um lado do desconhecido, por outro, todo o misticismo edeológico da sua arte. Arte esta que, ao longo dos séculos passou por estilos ditados pelo sistema canónico sendo, mais tarde, influenciado por um espírito mais realístico e natural dando ao artista maior liberdade criativa e representativa da natureza dos retratados. Um ícone dessa arte é o retrato de Nefertiti, esposa do Faraó Anmenófis IV que pode ser apreciado no museu de Berlim.
No decorrer dos séculos, a sensibilidade e inventiva humana, desenvolveu imensos estilos expressivos que marcaram épocas culturais e sociais como a arte grega, romana, românica, gótica, renascentista, barroca, neoclássica, impressionista, o pontilhismo e pós-impressionista. Tudo isto para se dizer que, a inspiração artística dos humanos ao longo dos tempos foi-se moldando de acordo com o sentimento, quer espiritual e religioso, onde os medos por vezes eram exorcismados pela exposição de dogmas plasmados nas telas e esculturas desses artistas, quer pela reverência do belo que a natureza nos oferece e, ainda, como simples meio de transmitir, afetos, raiva, revolta e o de fazer passar mensagens sociopolíticas e socioeconómicas.
Assim como no passado, as influências das mais diversas expressões de arte tem moldado os artistas contemporâneos.
Este artigo que hoje se publica é o primeiro de muitos outros, com o objetivo de dar a conhecer o trabalho de criadores de artes plásticas. Na estreia desta secção dedicada à arte e cultura, a Geo-Lusitanum vai falar de Fátima Ferreira.
Fátima Ferreira é uma artista plástica com um estilo diverso, quer nas técnicas que usa, quer nos materiais que emprega para trabalhar. Fruto da sua formação académica realizada na Escola Artística de Soares dos Reis no Porto, e da sua experiência adquirida como professora, inicialmente de desenho, depois de trabalhos manuais e por fim de EVT, Fátima Ferreira domina com mestria um conjunto de técnicas. Não tem um estilo específico e definido, deixando-se guiar pela sensibilidade e pelo que, no momento de criar, lhe dá mais jeito para expressar o sentimento que lhe vai na alma, recorrendo ao baú do seu saber no momento de decidir que material ou estilo aplicar. Aliás, a artista define o seu conceito de arte como a seguir se transcreverá e passa-se a citar: “Arte é amor ao sê-la! Que só um grande amor faz....... Não há um igual ao outro, não há outro parecido. Desenhar não é apenas buscar a perfeição das formas existentes na natureza, mas também transmitir emoções e sentimentos através de linhas, texturas, volumes, luz e cor. Percorro os materiais mais diversos e deixo "escorregar" espátula, pincel ou mesmo ausência de utensílios, deixando cair as tintas e brincando com a tela até chegar onde o meu estado de ALMA me leve. Os temas são os mais diversos desde figurações naturais às expressionistas. Limites imaginários desconheço. Não penso sai e registo visceralmente. A inspiração vem de uma necessidade e sentimentos inexplicável, ela flui como num parto! E Citando Agostinho da Silva - Filósofo e Pensador do século XX diz: “O essencial é que nunca o homem traia o artista, que a troco de uma felicidade que tanta gente tem se perca a obra que ninguém mais poderia realizar!”” Fim da citação.
A prova clara desta sua versatilidade é vista nos trabalhos que tem realizado e que podemos apreciar na galeria de imagens deste site. Como podemos constatar, os materiais usados são: esmaltes sobre tela e outros suportes, fibras naturais, pastas adaptadas e recriadas, óleo, acrílico, óleo aguarelado, aguarelas, entre outras.
A artista Fátima Ferreira teve para além da sua formação académica realizada como já se disse na Escola de Artes Soares dos Reis, também frequentou o atelier do mestre ceramista Mário Ferreira da Silva com quem colaborou e onde executou várias obras cerâmicas. É com esta expressão plástica que se identifica verdadeiramente. A sua paixão pela cerâmica, tem influenciado toda a sua obra, desde a modelagem dos materiais não cerâmicos até às pinturas que se confundem como se de painéis cerâmicos se tratassem, pois, as formas e texturas aplicadas nas pinturas, são uma aproximação dos resultados finais na arte do fogo.
A sua experiência como artista plástica com um cunho pessoal e único começou com a execução de um trabalho académico aos 18 anos, cujo título é “Sereia”. Usou uma pasta recriada e adaptada pela própria, sobre suporte de madeira, dando relevo, texturas e cor. Este foi classificado, na Escola Soares dos Reis, com 19 valores, premiando a inovação e a criatividade. Estas são as técnicas que atualmente transporta para os seus trabalhos que os torna singulares, como uma assinatura intransmissível.
De referir que a Fátima Ferreira desde os seus vinte e poucos anos até 2011 aplicou estes conhecimentos na sua docência, não tendo então realizado qualquer obra sua. A partir de 2011 decidiu voltar à arte colocando nas telas e suportes toda a criatividade e sensibilidade acumulada, ao longo deste interregno, dentro de si.
Hoje tem o privilégio de expor seus trabalhos em mostras temáticas, onde as suas obras, pela sua qualidade, têm recebido atenção especial pelo público que as observa com agrado.
Fátima Ferreira diz-se feliz quando ouve comentários de pessoas de diferentes sensibilidades darem as mais distintas interpretações aos seus trabalhos. Para a artista, significa que as suas obras conseguem tocar a alma dos observadores que não ficam indiferentes à sua arte. Não importa que os espectadores interpretem os seus trabalhos de forma diferente da sua, afinal, a lei da causa efeito é subjacente a tudo que nos rodeia, o que para uns significa um copo meio cheio para outros pode significar meio vazio.
Se ficou curioso sobre a arte de Fátima Ferreira, vá conhecer de perto alguns dos seus trabalhos expostos na galeria Vieira Portuense, com quem trabalha de perto, colaborando nas diversas atividades promovidas pela galeria. A propósito, vai realizar-se um encontro no próximo dia 15 de Junho do corrente ano, com abertura às 15:30h, de artistas plásticos ibéricos, contando-se também com trabalho desta artista plástica. A galeria situa-se no Largo dos Loios 50, Porto e a mostra irá decorrer até ao dia 13 de Julho tendo como tema “Pintar o Porto II” Os artistas esperam por si, reserve algum do seu tempo e apareça, irá ter algumas agradáveis surpresas neste dia de abertura, com declamação de poesia e música tradicional portuguesa, numa diversa demonstração cultural.
Reportagem, texto e fotografia de Floriano Luís Silva
Agradecimentos à artista plástica Fátima Ferreira pela disponibilidade demonstrada em colaborar neste trabalho da Geo-Lusitanum
[1] www.fumdham.org.br/pinturas.asp
Fontes do artigo – Paleolítico e Arte Egípcia In Diciopédia, Porto Editora
